SPFW, ÚLTIMA EDIÇÃO

03.05.2019

Alô, Chics! 

Passados alguns dias da última edição do SPFW, com o coração pesado e ainda triste pela tragédia da morte modelo Tales Cotta minutos depois de levado numa ambulância para o hospital, faço algumas considerações sobre o evento que, acho, deveriam entrar nas reflexões dos profissionais envolvidos nele.
São muitas coisas a se considerar. O SPFW foi de uma importância total para centralizar e organizar o calendário da moda na década de 1990/2000, época em que a moda era objeto de desejo de todas as pessoas do mundo.

O evento, criado por Paulo Borges em 1995, tomou o espaço que nenhum órgão governamental ou setorial conseguiu e se tornou o centro oficial da atividade do país. Era ele quem regulava o calendário do setor têxtil, quem lançava marcas, quem tinha força para reunir todos os participantes dessa indústria (das tecelagens ao varejo) tão carente de disciplina.

Teve, portanto, papel fundamental no desenvolvimento econômico do setor e mesmo além, pois suas apresentações movimentavam outras atividades como o comércio e o turismo em São Paulo, sendo considerado, depois da Fórmula 1, o segundo responsável pela ocupação de hotéis, restaurantes, lojas e taxis na cidade.

Imprensa, compradores, fashionistas e público em geral se baseavam em suas datas e suas direções para seus trabalhos, pautas e decisões. Nesta época, e ainda por muitos anos, patrocinadores brigavam para colocar dentro do evento seus stands e suas marcas.

Acontece que o panorama da moda, da atividade industrial, da imprensa, do comportamento do público, mudou. Estamos em 2019 - em outro mundo, nada mais a ver com panorama de mais de 20 anos atrás.

Então, a pergunta incômoda e assustadora que se coloca é: para quem é o SPFW nos dias de hoje?

︎ Para a imprensa? Que imprensa? Jornais lutam para sobreviver e sobram hoje poucas revistas de moda. O papel foi substituído pelo virtual. As jornalistas e analistas de moda se diluíram num mar de novas comentaristas e de qualquer pessoa que queira dar um palpite ou uma opinião. As televisões perceberem o pouco interesse que os desfiles estavam provocando e diminuíram o espaço do assunto.

︎ A moda não é mais objeto irrefreável de desejo. Hoje a libido do mundo está nos eletrônicos, um pouco nas artes e, numa maneira mais racional de ver a moda, menos consumista, mais preocupada com o bem viver das pessoas e do planeta.

︎ Há muito a data do SPFW não bate com a dos compradores do atacado, de modo que o evento não é para eles também.

︎ Quanto ao grande público, também uma novidade: deixou de ser grande para ser um público minguado, restrito aos convidados das marcas que ainda se animam para se deslocar até as lonjuras da Arca para ver um desfile.

︎ Fashionistas? Não se vê mais aquele divertido e variado movimento de boys e meninas na porta de entrada do SPFW, vestidos e montado de roupas criativas, fazendo muitas vezes concorrência com as tendências mostradas nas passarelas do evento. Essa turma tem preferido eventos menores, onde jovens estilistas propõe suas modas com as quais este público se identifica muito mais.

︎ Patrocinadores, como é natural, sentindo o decrescer do interesse do público e também encolhidos por conta do momento de crise pelo qual o país passa, se retraem e procuram novas e melhores plataformas para dar visibilidade a seus produtos.

︎ Os próprios participantes, das grandes marcas aos iniciantes, que gastam um bom dinheiro para desfilar, têm hoje, através da Internet, um canal direto de comunicação e de informação com seus clientes, semanalmente ou diariamente ou quando quiserem. O que, de fato, eles ganham em participar de uma semana de moda?

Um evento só tem sentido se souber responder à pergunta: “A quem ele se destina?”.

O SPFW está sem resposta para essa simples pergunta. O SPFW é, em si, uma marca poderosa, mas precisa reformular seu modelo e seu propósito.

Porque não pensar em vários eventos menores dirigidos a todos os participantes do trade, com foco total em suas datas, suas necessidades, suas expectativas? 

Está na hora de, com coragem, inventar outra coisa.
Beijos, 

Gloria